Sexta-feira, Julho 21, 2006

peça amorosa # 30
shoes by gucci



(Em 1999, estudei em Zurique na Suiça.
Vivi nessa cidade durante 3 meses.
Zurique é muito cara.
Quando eu lá estive, um menu do Mcdonalds custava 1.200, quando cá em Portugal custava 600 paus.
Para quem gosta de coisas caras isto pode ser muito mau.
Coisas caras, ou coisas bonitas, como eu lhes chamo.

6 de Janeiro de 1999
Gostar de coisas bonitas pode ser um sinónimo de beleza.
Gostar de coisas bonitas e caras, pode ser uma tragédia.)

10 Janeiro de 1999
Aqui em Zurique tudo é preto. Preto, preto, preto. As pessoas são trombudas, mal se falam, caminham nas ruas com a cabeça para baixo e o único barulho que se ouve é o dos eléctricos a passar. Com sorte, ouvimos uma vaca a pastar ao fundo na montanha.
O preto é mesmo a cor abundante. As lojas e os barzinhos da moda têm sempre uma parede pintada de preto. É claro que sendo uma cidade muito cara, toda a gente veste Calvin Klein, Gucci ou Prada. Mas sempre em preto. Não admira que os suíços sejam uns chatos e, segundo as estatísticas, o povo europeu com mais queda para coisas fetiche e kinky.
Até a casa onde estou a viver tem um ramo de rosas pretas na entrada e outro no meu quarto. Eu fiz logo questão de comprar um grande ramo de rosas vermelhas para o meu quarto.
Foi a minha primeira compra em Zurique.
A minha segunda compra foi mais cara.

12 de Janeiro de 1999
A rua principal do centro de Zurique chama-se Bahnhofstrasse. Uma enorme rua em forma de curva. A rua das marcas. Mas das grandes marcas. Nada de Zaras ou Pull&Bear. E é nessa rua que existe a loja da Gucci. O Tom Ford transformou a marca que se comprava em boutiques pirosas de praia, num estilo de estrelas porno, mulheres esculturais e proprietários de casas nas colinas de Los Angeles.
Eu não faço parte de nenhum destes grupos, mas o amor bateu mais forte.
Apaixonei-me perdidamente por um par de sapatos Gucci. Minto. Primeiro que tudo apaixonei-me por umas calças. São cinza e bordadas a lantejolas de lado. A menina da loja disse-me que só havia dois modelos no Mundo. Um em Zurique, outro em Nova Iorque.
(Eu na altura já era gordo. E pensar que umas calças da Gucci que só existiam em dois modelos… Que um desses modelos era no meu número... Senti-me honrado. Se já estava apaixonado, ainda mais caído pelas calças fiquei.)
Experimentei as calças.
(Eu na altura estava abonado. Muito abonado. Mas…. Digamos que eu tinha visto mal o preço e faltava um zero ao valor das calças. Eu estava muito abonado. Mas havia limites.)

Decidi canalizar todo este amor que tenho para dar, para um par de sapatos com quem tinha trocado olhares quando entrei na loja. Eu gosto mesmo de coisas bonitas. E estes sapatos são lindíssimos. Discretos. Pretos. Com umas tiras prateadas. Super confortáveis. Meio ténis, meio sapatos. E da Gucci. Não consegui sair dali sem os levar. Foram bastante mais baratos que as calças, mas mesmo assim, muito caros.

20 de Janeiro de 1999
Os sapatos são um sucesso.
Na rua as pessoas olham e comentam.
Noto também como estes sapatos me dão um certo estatuto.
Quando entro nas lojas da Bahnhofstrasse de calções e t-shirt, mas com estes sapatos, as empregadas tratam-me com imenso respeito. Muito diferente das primeiras vezes em que lá entrei.

23 de Janeiro de 1999
Aos poucos fui-me apaixonado cada vez mais por estes sapatos. Quanto mais gosto deles, mais os uso. E os sapatos ressentem isso, claro.

4 de Fevereiro de 1999
Comecei a sentir algum desconforto com o estatuto que estes sapatos me dão.
Ontem fui a uma discoteca mais ou menos decadente. Não costumo sair à noite com os Gucci, mas lá arrisquei. A disco estava muito cheia e decidir ir até ao andar de cima onde havia umas mesinhas e umas cadeiras. Sentei-me e pus-me a olhar à volta. Uns minutos depois, sentou-se um homem trintão com duas miúdas, já muito acelerados e a fazer muito barulho. O homem puxou de um saquinho de coca e começou a fazer linhas em cima da mesa. Uma das miúdas entornou um copo para o chão e a outra só se ria, histérica. Eu decidi sair dali, porque estava muita confusão. O homem viu-me a afastar e diz-me em inglês: não te vás em embora! Com esses sapatos, não! Fica!
Eu pensei que os meus sapatos tinham poder a mais.

18 de Maio de 1999
Já em Lisboa, vejo um rapaz com uns sapatos iguais. Perguntei-lhe onde os tinha comprado e ele respondeu-me que em Paris, por quase um terço daquilo que eu tinha pago. Foi também nessa altura que olhei para os meus sapatos, mas olhei mesmo, e reparei que a sua beleza estava a desvanecer. Estavam gastos. Eu tinha cabo deles.

20 de Agosto de 1999
Coisas bonitas e depois?
Mentiras bonitas e então? E se eu gostar de mentiras bonitas?

13 de Junho de 2006
Quase 7 anos depois de comprar os Gucci, descubro um site na net chamado Ebay. É um site onde se pode comprar e vender tudo. Basta criar uma conta, associar um cartão de crédito e voilá. Podemos comprar ou vender DVDs, coisas antigas e até sapatos de marca.
Resolvi por os sapatos Gucci à venda. Não aguentava vê-los em decomposição. Não foi isto que comprei.
A ver se alguém lhes pegava. Eu preferia ficar com a imagem deles novos e impecáveis.
O preço base de licitação não digo qual foi, mas posso adiantar que foi bem mais barato que o preço de venda.
O leilão durou 7 dias e só ao 6º dia é que alguém fez a primeira licitação. O anónimo imediatamente dobrou o preço que lá estava não dando hipótese a mais ninguém. Durante esses dois dias não houve mais nenhuma licitação e os sapatos foram vendidos por um preço razoável. Mandam as regras que poucos dias depois de receber o débito no meu cartão de crédito, eu mande imediatamente os sapatos ao comprador. Assim fiz.

22 de Junho de 2006
Curiosamente não senti nenhuma pena quando despachei por correio o par de sapatos Gucci. Mas fiquei curioso. Quem seria este homem que me teria comprado os sapatos?
Acabo de mandar um e-mail a agradecer. Depois um outro e-mail a perguntar se era coleccionador de sapatos antigos e usados. E ainda outro a saber se ele era fetichista ou coisa que o valha.
Nunca tive resposta.
Perdi os meus sapatos Gucci com a mesma facilidade com que os comprei.

(Lembro-me perfeitamente dia em que comprei os sapatos Gucci. Saí da loja radiante e andei pela cidade com um sorriso enorme. Dirigi-me para o café da ópera de Zurique. Tinha combinado encontrar-me lá com um então amigo que tinha na cidade. Procurei o café e acabei por me perder nas salas de ensaios e corredores. Espreitei o grande palco do auditório. Sozinha em palco, uma senhora estava descalça a cantar uma ária.
Em italiano, ela dizia:

Dove sono / I bei momenti
Di dolcezza e di piacer?
Perché mai, se in pianti e in pene
Per me tutto si cangió,
La memoria di quel bene
Dal mio sen non trapassó?


Qualquer coisa como:

Onde estão / Os belos momentos
De doçura e de prazer?
Porque então, se em pranto e em penas
Para mim tudo mudou,
A memória daquele amor
Do meu peito não se apagou?


Não sei porque é que a cantora de ópera estava descalça. Mas de certeza que ela sabia muito bem o que estava cantar.

Se calhar isto é tudo um grande disparate,

Obrigado por me ouvirem,
Boa noite.)